Interrail pela Europa sem Internet:
A minha aventura de mochila às costas

Facebook
Pinterest
WhatsApp
Imprimir

Bem-vindo ao meu Interrail pela Europa! Com 18 anos e uma mochila maior do que eu, parti para um mês de aventura pela Europa sem planos fixos, sem internet e muito menos apps para me guiarem. Tudo era analógico: mapas das estações, folhetos de turismo, perguntas a desconhecidos e decisões tomadas no momento. 

Quando leio notícias sobre jovens a fazerem Interrail e a contarem como foi duro passar 7 horas num autocarro ou chegar a um país sem falar a língua, penso logo com um tom muito paternalista: adorava ter 18 anos em 2025! 😂

Sem internet e sem alojamentos marcados, o meu “desconforto” foi um pouco mais hardcore: dormi no chão das estações, no chão do comboio na zona das portas (porque os lugares estavam todos esgotados), tomei banho nos chuveiros da praia, dormi na praia… Não digo isto para me gabar (até porque não é grande motivo de gabarolice parecer uma sem-abrigo durante um mês 😅), digo-o porque hoje, com tudo mais fácil e acessível e até com o bilhete gratuito para jovens de 18 anos (pede aqui), tens a oportunidade perfeita para partir para a tua própria aventura. Aproveita! 😁

Interrail aos 18: Obrigada, Mãe!

Quando fiz 18 anos, a minha mãe ofereceu-me um bilhete de InterRail! 😍

Na altura, estudava fora na Universidade e tinha vindo ao Porto passar o fim de semana do meu aniversário. A minha mãe apareceu de manhã no meu quarto, a cantar os parabéns e com um envelope na mão. Não era costume dar-me dinheiro de prenda, nem bilhetes para concertos, mas, com o sono que tinha, nem tive tempo de pensar no que poderia ser até o abrir. Dentro estavam dois bilhetes que diziam “Interrail Global Pass”. Nunca tinha ouvido falar disso, mas pelo nome deu para perceber a ideia.😉

Ela explicou: um mês pela Europa, comboios à escolha, e eu podia levar o meu namorado da altura. Pediu-me para organizar mais ou menos os primeiros dois dias e fazer um mapa muito por alto dos sítios que queria visitar… mas, essencialmente, para me deixar ir onde o vento me levasse. Sempre foi aventureira! Hoje, olho para trás e não sei como me deixou fazer aquilo! 😅

Quando acabei os exames da faculdade, comecei a preparar a viagem de verão. O resto da família ficou entre o choque e a incredulidade: deixar-me viajar (quase) sozinha pela Europa inteira, numa altura em que ninguém tinha dados móveis e o roaming ainda se pagava? Quase não havia blogs de viagem e, para ser honesta, nem os procurei. Meti na mochila (maior do que eu) uma panelinha e talheres de campismo, roupa para as 4 estações do ano, chinelos, toalha fininha, tenda e saco-cama. Não foi muita roupa, porque a ideia era ir lavando pelo caminho. E siga!

Millennial não praticante: como complicar a própria viagem

A minha mãe tinha um telemóvel com dados móveis e ofereceu-se para mo emprestar durante a viagem para que eu pudesse ter acesso à Internet em todo o lado. Respondi estupidamente “não, obrigada”, do alto da minha sapiência de 18 anos fresquinhos e cheios da sabedoria própria da idade. Afinal, o meu Nokia 5310 era mais do que suficiente para apanhar as redes públicas wi-fi que, certamente, países tão evoluídos teriam em cada esquina. Mais tarde viria a perceber que em 2011 não havia wi-fi em cada esquina, que o telemóvel não a apanhava muito bem e que ter internet é útil durante um interrail. 🙃 Lições que a vida nos tenta ensinar e que, teimosamente, insistimos em não aprender.

O meu Interrail decorreu praticamente sem Internet.

Não podia seguir o GPS quando saía de uma estação de comboio no meio de parte nenhuma às 23:59. Tinha de perguntar o caminho para o centro a alguém da estação, rezar para que percebessem inglês e, uma vez no centro, seguir o mapa turístico em papel. A sorte é que os mapas offline no telemóvel funcionavam ocasionalmente e livravam-me de uma ou outra situação chata.

Não podia marcar um hostel online no Booking porque não sabia onde ia estar no dia seguinte e as redes wi-fi que tinha a sorte de encontrar em cafés não eram assim tão boas. Não podia ver que lugares instagramáveis havia perto de mim porque 1. não existia instagram e 2. os mapas turísticos só tinham os museus e os monumentos. Se tivesse cultura suficiente para saber que uma viagem por comboios regionais entre Zagreb e Verona me daria uma vista dos Alpes, lembrar-me-ia de abrir as cortinas durante a viagem. Felizmente, gostava de viajar sempre com as cortinas abertas, mesmo de noite, por isso não perdi a vista. No entanto, lugares como o Lago Bled, na Eslovénia passaram-me ao lado, apesar de ter estado a uns quilómetros de lá.

Para mim, a beleza do Interrail era ser surpreendida pelos lugares que visitava, ir sem expetativas, sem pesquisas antecipadas. Entrei em cada país com uma visão virgem e sem ideias pré-concebidas do que ele tinha para me oferecer. A desvantagem é que passei ao lado de alguns lugares que valiam a pena serem visitados sem fazer a mínima ideia de que estavam ali à mão de semear. Tudo isso fez parte da experiência e deu-me vontade de voltar mais tarde para os conhecer de forma mais aprofundada.

Primeiras noites e Pulseiras de amizade

Pensei em começar o Interrail de avião, para começar mais longe e poder cobrir mais sítios. Mas não era esse o espírito do meu Interrail. Foi especial partir da estação Campanhã com uma mochila maior que eu e com mais peso do que aquele que uma jovem de 48kg deveria suportar. Senti que era assim que devia começar: de comboio.

A viagem Porto-Vigo-Madrid-Barcelona foi planeada sem paragens para chegar o mais depressa possível a Barcelona, ponto inicial do meu passeio. Foi a única parte da minha viagem que planeei antes de sair de casa.
A partir de Barcelona, o plano era não haver plano e ir seguindo o velho mapa dos comboios regionais.

Fui direta ao Hard Rock Café, uma espécie de tradição pessoal que mantive em todas as cidades que visitei e que tinham um. Adorava percorrer aqueles corredores e ver, até no caminho para a casa de banho, as guitarras, roupas e partituras de artistas lendários. A ideia era fazer coleção de t-shirts, mas quando vi o preço, percebi que o que precisava mesmo era de pins para a mochila. A Sagrada Familia lá continuava em obras e os homens-estátua das Ramblas eram cada um mais criativo que o outro. Lembro-me de ver velhinhos a jogar xadrez em cima de um muro, completamente concentrados, indiferentes ao barulho e aos turistas à volta. Passei o dia em Barcelona e apanhei um comboio noturno com aqueles assentos que se transformam em camas estreitas durante a noite, ideais para costas de jovens de 18 anos.

Acordei com o barulho metálico dos carris e a luz cinzenta de Paris a entrar pela janela do comboio. Depois de um dia passado em Paris e de ter dado 2€ a uma senhora muda que me pediu para assinar um papel e ficou a resmungar pela pequena quantia, aprendi que há uma comunidade de dezenas de mudos em cada jardim de Paris e parecem todos ser da mesma família. Entretanto voltei a Paris em 2019 e já não encontrei mudos.

O plano era dormir em Nancy, que ficava a meio caminho de Frankfurt mas, como era um sítio pouco turístico, deveria ter dormida mais barata que Paris. Devia ter-me lembrado que, se era assim tão pouco turístico, não devia haver comboios a cada hora pelo que, quando cheguei à estação à noite, já não havia comboios para Nancy. Teria mesmo que ficar alojada em Paris, em pleno Agosto e tentar marcar alguma coisa sem ter que vender um rim. Mas claro, não havia cafés com boa internet àquela hora, por isso liguei à minha mãe que, amavelmente, me tratou de arranjar um hostel à última hora.

O que a minha mãe não sabia era que Montmartre não era um lugar assim tão seguro para passear à noite, ou então sabia e quis enrijecer-me. Mas correu tudo bem. Fui abordada de madrugada por dois senhores com um grande caparro que me disseram ser da Argélia e que queriam fazer-me uma pulseira da amizade enquanto diziam “Hakuna Matata, don’t worry”. Fizeram a pulseira, dei-lhes 2€ (foi quanto avaliei que a minha vida valesse) e fui em busca do meu hostel. Passei por uma esplanada onde estava um casal a beber vinho que me deu um pouco a provar e, como já tinha aprendido muitas lições naquele dia, recusei e agradeci. Tudo correu sem mais sobressaltos e comi os últimos enlatados que tinha na mochila quando cheguei ao hostel. Foi a última vez que usei os talheres de campismo naquela viagem.

Corredores de água com gás e de camas para 20

No caminho entre Paris e Frankfurt, lembro-me de ter parado numa ou outra vila alemã e, sempre que entrava num supermercado, havia tooooooodo um corredor infinito só de água com gás. Para quem não me conhece, água com gás é o meu grande vício e, na Alemanha, eu estava no paraíso. Havia umas seis marcas de água natural sem gás e umas setenta variedades de água com gás, iluminadas e com coros angelicais a cantar. E não eram daquelas fraquinhas… eram fortes como as do Lidl! Nada daquela tímida efervescência de certas marcas portuguesas. Um sonho!

Segui viagem, passei por Frankfurt, onde provei pela primeira vez bife tártaro. Na altura, pareceu-me mal passado demais. Mais tarde cheguei a Praga onde fiquei num hostel com dormitórios para 20 pessoas. Era eu e mais 19 rapazes todos entre os 18 e os 25 anos num quarto que mais parecia um pavilhão. Entrei já com toda a gente a dormir, esgueirei-me até à minha cama, enfiei-me debaixo dos lençóis até ao topo para que ninguém visse a minha cara e, por mais improvável que pareça, adormeci tranquilamente.

Em Praga, a moeda ainda era a coroa checa e tudo me parecia baratíssimo, o que me permitiu visitar uma série de museus gratuitos (alguns até completamente por acaso), só porque entrei para ver o que era. Assisti à troca da guarda do Castelo de Praga e fiquei fascinada com os artistas de rua que enfeitavam a Charles Bridge. Havia música, cores e vida naquele cenário escuro e pontiagudo que parecia saído de um filme gótico. Ainda me lembro do espetáculo dos bonecos na torre do relógio, uma surpresa encantadora que me prendeu a atenção. Tudo naquela cidade tinha um ar misterioso e muito diferente do que estava habituada. Um pouco sombrio mas, surpreendentemente, bastante animado. Como o Halloween.

A Europa apresentou-me aos artistas de rua. Se há coisa de que gosto quando passeio por um centro histórico, são aqueles artistas ao estilo das Ramblas: pessoas a tocar violino, guitarra e saxofone, pintores a criar retratos instantâneos ou a grafitar com baldes e formas, caricaturistas, malabaristas, músicos a tocar em copos, adultos a fingir que são bebés num berço, homens-estrela ou estátua que mudam de posição quando se dá uma moedinha, e dançarinos de flamenco ou de hip-hop a conquistar o público com cada passo… O meu marido tem uma regra: “se a Inês pára para ver e sorri, tenho de dar uma moeda“. Vamos à falência…
(Nota: Ora aqui está uma frase em que o novo acordo ortográfico para a palavra “pára” nos deixa ficar mal…)

Autocarros a flutuar, pés a mergulhar

Quando cheguei a Viena, senti imediatamente uma mudança de ambiente. A cidade era muito limpa e clara, com edifícios brancos e clássicos que contrastavam com o preto e as pontas afiadas de Praga. As pessoas pareciam mais chiques, mais arranjadas, e havia muitos turistas a tirar fotografias com os primeiros tablets que tinham acabado de sair (em Portugal quase ninguém tinha tablet naquela altura, por isso chamou-me mesmo a atenção). Também achei engraçado que dois museus, situados um em frente ao outro, fossem gratuitos, o que me pareceu uma grande oportunidade para explorar cultura sem gastar muito.

Cheguei a Budapeste já passava das 11h da noite e o comboio deixou-me em Peste, que na altura era a parte mais “bairro social” da cidade. O balcão de informações onde normalmente ia pedir mapas já estava fechado e não havia absolutamente nada aberto, nem um único sítio onde pudesse pedir ajuda. Tinha marcado um hostel barato fora do centro, mas não tinha mapa para lá chegar. Por um verdadeiro milagre, o meu telemóvel, que não tinha internet, mostrou-me o pontinho azul no mapa e consegui encontrar a rua do hostel. Foi a única vez em toda a viagem em que aquele ponto azul funcionou bem. No dia seguinte, explorei a cidade, mas acabei por passar quase toda a tarde na Margaret Island, ignorando as outras maravilhas que ainda não tinha visto. A fonte da ilha conquistou-me. Tinha os pés mesmo cansados de caminhar tantos dias e tantos km’s com aquela mochila pesada às costas e soube-me pela vida arregaçar as calças e entrar naquelas águas refrescantes. Pequenos prazeres… Também me ficou na memória o entusiasmo de ver um autocarro amarelo a entrar diretamente no Danúbio, navegando pela água como se fosse a coisa mais natural do mundo. Hoje em dia é comum ver esses autocarros anfíbios em Lisboa, mas naquela altura fiquei fascinada.

Do chão da estação ao topo dos Alpes

Zagreb foi um verdadeiro filme. Já não me lembro exatamente das paragens nem de tudo o que aconteceu, mas sei que estava a tentar ir de Budapeste para Verona e tive de passar por Zagreb para trocar de comboio. O comboio avariou e ficámos parados cerca de duas horas, fechados dentro do vagão. Para amenizar, deram-nos saquinhas de muffins como cortesia. Worth it!💪🏼 Quando finalmente chegámos a Zagreb, ou a uma estação perto (já não sei bem) já era de noite e só havia comboios de manhã seguinte. A estação estava meia em obras, não havia posto de informação, só umas estruturas dispersas pelas obras. Eu e mais uns 5 ou 6 jovens turistas de várias nacionalidades ficámos naquela estação improvisada no exterior, à espera dos comboios. Não dormimos propriamente: juntámos os sacos-cama para fazer calor e ficámos a conversar, enquanto um ou outro adormecia. De manhã, cada um apanhou o respetivo comboio e seguiu para o seu destino. Eu dormi no comboio até Verona, mas, como durmo sempre com as cortinas abertas, acordei com a imagem dos grandiosos Alpes italianos nas janelas gigantes do comboio. Que vista, meu Deus! A melhor maneira de acordar. Em Verona, troquei de comboio para Veneza e comecei a explorar a Itália pela costa.

Hostels, para quê?

Descer pela costa italiana de um lado e subir pelo outro foi, para mim, a essência do Interrail. A zona da Costa Amalfitana, o Adriático, os comboios lentos e quentes a acompanharem o mar azul. Eu ia sentada à janela, a olhar para as paisagens, e quando via um lugar bonito pensava simplesmente: “este sítio é giro, vou ficar aqui” e saía do comboio sem sequer saber o nome da estação. Era um sentimento de liberdade quase primitivo, em que o tempo e o mapa deixavam de mandar e só seguia a vontade.

Em Itália, abusei das noites ao ar livre. O tempo estava bom, havia praias por todo o lado e eu queria aproveitar cada minuto para ver o máximo possível, por isso, procurar hostels parecia um desperdício de tempo (e de dinheiro). Dormia onde calhava…

Muitas vezes aproveitava um comboio regional noturno para dormir no chão das carruagens, embrulhada no saco-cama; outras, explorava cidades até tarde e achava que não valia a pena procurar dormida se o comboio seguinte partia às seis da manhã e acabava por dormir no chão da estação. Quando não havia estação, dormia na praia: montava a tenda na areia, adormecia com o som do mar e acordava com o sol a aquecer a lona. Quando a minha mãe ligava e perguntava “tens dormida para hoje?”, eu respondia “tenho, não te preocupes”. Tecnicamente, tinha. 😅

Copertos e Calções Hereges

Em Mestre, acampei para visitar Veneza e foi lá que aprendi o significado de coperto. No final de uma refeição, pedi a conta e percebi que havia uma taxa extra. Perguntei ao empregado o que era aquilo e ele começou a gritar “Coperto!”, num tom teatral, enquanto apontava para os talheres, para a toalha e para os pratos. O coperto é uma taxa de serviço cobrada em muitos restaurantes italianos, em que pagas por teres a mesa posta. Uma forma elegante de pagar por respirar ar com aroma a carbonara. Não obstante, adorei Veneza, perder-me pelas vielas, atravessar as pontes piturescas, tudo era encantador. Só não entrei mais em restaurantes.😅

Passei por Nápoles que, honestamente, achei suja e caótica, dada a minha paragem rápida. O objetivo era visitar Sorrento e Capri comprar um limoncello para o meu pai e aproveitar aquelas águas maravilhosas e cristalinas em frente a areais não tão maravilhosos, super lotados e o pior de tudo: pagos. Mesmo assim, o banhinho soube-me pela vida! 😁

Em Pompeia, o choque! Ver aquelas figuras petrificadas pelo Vesúvio (um homem deitado no chão a proteger a cabeça, um cão contorcido num último gesto de desespero) é uma daquelas imagens que ficam coladas à memória. Ao longe, o Vesúvio, sempre coberto de nuvens, parecia assustadoramente perto. Diz a lenda que o fumo que sai do cume é o suspiro dos deuses que lá vivem, ainda zangados com o que aconteceu. E a verdade é que, mesmo tantos séculos depois, olhar para aquele monte e imaginar a força que os engoliu a todos dá-me arrepios. Lembro-me de imaginar cenários dantescos e de arquitetar todas as saídas e escapatórias possíveis se o vulcão entrasse em erupção comigo ali, tipo Jason Bourne sempre que entra numa sala.

Em Roma, o calor era de outro mundo. Quando cheguei à Basílica de São Pedro, de top e calções, percebi que não podia entrar assim. Lá troquei o top por uma t-shirt, mas resmungaram porque os calções ficavam ligeiramente acima dos joelhos. Solução? Puxei a t-shirt para baixo e enfiei os calções para debaixo do rabo, à moda dos miúdos fixes do 8.º ano. A artimanha resultou, mas tive de visitar uma das basílicas mais bonitas do mundo a andar à pinguim. Segui para Verona, a cidade de Romeu e Julieta, com as suas varandas floridas, ruas de pedra e uma luz dourada que fazia tudo parecer mais bonito.

Florença apareceu elegante, artística, tudo a cheirar a Renascimento. Bolonha e Pisa foram desvios rápidos (sim, tirei a foto a fingir que segurava a torre, comme il faut), Ancona e San Benedetto del Tronto foram uma surpresa: praias calmas, descontraídas e com um grande areal. Milão fechou o capítulo italiano com o seu ritmo cosmopolita e um ar de cidade que sabe que é bonita. Ficou a vontade de lá voltar, para ver a Última Ceia e visitar os lagos próximos.

Festival de Cannes: versão pé descalço

Quando terminei a volta por Itália e cheguei ao Norte, entrei na Riviera Francesa e foi como atravessar um postal ilustrado. O Mónaco, com os iates gigantes a brilhar ao sol, Nice e Villefranche-sur-Mer, com as casinhas brancas e em tons pastel a descerem até ao mar azul-turquesa, todas com vasos de flores nas varandas. Cada paragem tinha luz própria, cores, janelas pequenas e um ar de riqueza que contrastava com o meu aspeto de moreno sujo e o meu fiel lenço para o cabelo de gosto duvidoso. 😅

Em Cannes, tive uma experiência digna de filme. Mas não pelas melhores razões.

Dormi na praia dentro do saco-cama, sem tenda, e às tantas da manhã acordei com uma voz masculina alta a barafustar em francês. Levei logo a mão à navalha debaixo da almofada, preparada para qualquer coisa, mas afinal era apenas o senhor do trator que limpa a areia, a pedir para eu me desviar e lhe deixar espaço para alisar o terreno. Que susto! Quem me manda dormir ali?

Em Marselha, também tinha um comboio de madrugada e, como não consegui arranjar nenhum lugar para dormir, acabei por ficar na estação, como já era meu hábito. Desta vez, um segurança aproximou-se e pediu-me que me deitasse nos bancos. Tentei argumentar que no banco estaria a ocupar lugar de alguém e que preferia estar no chão, mas ele manteve-se firme. Coitado do homem, a paciência que teve com a Inês de 18 anos… Que vergonha! 😅 Acabei por sair da estação e dormi no exterior, rodeada por pessoas que pareciam ter muito mais experiência em dormir ao relento do que eu. Tenho de voltar à Riviera Francesa mostrar que agora sou uma menina crescida e já durmo em camas e tudo!

Fim da linha (tecnicamente, meio da linha)

Deixei o sul de França para trás, fiz uma paragem rápida em Andorra e fiquei 2 dias em Madrid, já com as saudades de casa a puxarem-me pelas alças da mochila. Apanhei o comboio para Vigo, pronta para o último trecho da viagem, mas o cansaço venceu. Adormeci profundamente e, quando dei por mim, o comboio já seguia para norte, em direção a Pontevedra. 🙃 Claro que já não havia mais ligações para o Porto nesse dia e a minha mãe, farta de esperar, mandou um “that’s enough!” e acabou por atravessar a fronteira para me ir buscar. Um fim caótico para uma viagem dentro deste registo improvisado e trapalhão.

Assim terminou a aventura: com uma chegada atribulada, dentro do estilo habitual, mas regressei inteira e aprendi que consigo desenrascar-me. Voltei cansada, com o cabelo emaranhado, a mochila a cheirar a comboio, talheres de campismo não usados e areia nas meias. Mas com o coração cheio! O Interrail deu-me um gosto pela liberdade e por conhecer mais mundo que nunca mais me abandonou. Mais importante, percebi que os percalços não são tragédias, são apenas o início de boas histórias.

Prepara a tua próxima viagem
Facebook
Pinterest
WhatsApp
Imprimir

Gostaste do artigo? Conta-me tudo nos comentários!

– Próximos Artigos –

Acompanha as viagens nos destaques do Instagram 📸